Os agricultores franceses intensificaram suas mobilizações nesta quarta-feira (25), estão a promover novos bloqueios de estradas como forma de pressionar o governo a responder rapidamente às suas reivindicações. Esse movimento de insatisfação soma-se a uma série de protestos semelhantes em outros países da União Europeia, que têm ocorrido nos últimos meses.

As razões da revolta dos agricultores variam de um país para outro, mas, a cinco meses das eleições para o Parlamento Europeu, os partidos de extrema direita estão a tentar capitalizar esses protestos, usando-os como uma oportunidade para atacar a União Europeia (UE), que é frequentemente responsabilizada por nacionalistas por diversos problemas.

A morte trágica da agricultora francesa Alexandra Sonac, de 36 anos, e de sua filha Camille, de 12 anos, que foram atropeladas na terça-feira (23) próximo a uma barricada de feno erguida na região de Occitânia, agravou ainda mais os ânimos dos manifestantes. Para piorar a situação, o motorista e as duas passageiras do carro envolvido no acidente eram de nacionalidade armênia e haviam recebido ordens para deixar o território francês após terem seus pedidos de asilo negados pelas autoridades.

A FNSEA, principal entidade agrícola francesa, anunciou que irá divulgar uma lista com 40 “exigências” dos produtores franceses às autoridades. Pelo menos três dessas demandas são compartilhadas com outros agricultores europeus: o aumento do imposto sobre o diesel usado em tratores (conhecido como GNR) entre 2024 e 2030, os custos de adaptação às normas ambientais estabelecidas no pacto de transição ecológica da União Europeia e a competição desleal de produtos de países que não seguem essas regras, como o Brasil e a Ucrânia.

Em França, o governo já havia decidido aumentar gradualmente o imposto sobre o diesel utilizado pelos agricultores. Neste ano, a tributação subiu para 0,67 centavos de euro por litro, quase 3 centavos a mais do que o valor pago pelos produtores em 2023 (0,38 centavos de euro por litro).

Marion Maréchal, candidata de extrema direita nas eleições europeias pelo partido “Reconquista” em França, expressou apoio aos agricultores franceses numa manifestação realizada em frente ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, nesta quarta-feira. Ela afirmou que os produtores franceses irã enfrentar um “tsunami” de novas regulamentações europeias em 2024, que reduzirão a produção agrícola sob pretexto de preocupações ecológicas excessivas.

A onda de protestos dos agricultores na Europa começou na Holanda em 2022, quando o governo holandês, um grande exportador de produtos agrícolas, decidiu reduzir em 50% as emissões de nitrogênio na agricultura até 2030 para cumprir as metas da UE. Essa decisão provocou a revolta dos produtores locais.

Na Bélgica, os agricultores das regiões de Flandres e Bruxelas começaram a mobilizar-se no mesmo período. Na época, o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, afirmou que era preciso “evitar sobrecarregar o barco” adicionando novas regras de produção.

Na Alemanha, os agricultores iniciaram protestos no início de janeiro, em resposta à decisão do governo de Olaf Scholz de retirar a redução fiscal do diesel utilizado na agricultura a partir de 2026. Embora o diesel seja altamente poluente, os agricultores alegam que ainda não existe uma alternativa viável de motores elétricos para seus equipamentos agrícolas. Os protestos na Alemanha foram comparados à revolta dos “coletes amarelos” que ocorreu na França em 2018.

Em 15 de janeiro deste ano, a Associação Alemã de Agricultores organizou uma grande mobilização de tratores no Portão de Brandemburgo, em Berlim. A manifestação recebeu o apoio de artesãos e caminhoneiros que se opõem ao aumento de impostos no setor, conforme previsto no orçamento alemão de 2024. Os manifestantes argumentam que as decisões do governo alemão ameaçam a competitividade e a sobrevivência dos agricultores, bem como das pequenas empresas de transporte.

Na Polônia e na Romênia, agricultores também protestaram contra a concorrência de trigo importado da Ucrânia. Com a queda das exportações ucranianas de cereais devido ao bloqueio russo no Mar Negro, a Ucrânia fechou acordos com países da UE para absorver parte de sua produção de grãos.

Daniel dedica-se a explorar e analisar os complexos contextos sociopolíticos de Portugal e da Europa.