Numa atmosfera saturada de temas explosivos como turismo, finanças e energia, surgiu, inusitadamente, uma discussão sobre cereais entre Vladimir Putin e Tayyip Erdogan. À primeira vista, esta poderia ser uma questão menor, mas o cereal aqui não é mera comida; é uma moeda de poder, uma ferramenta diplomática cujo peso não deve ser menosprezado.

Não é por acaso que a Rússia «foi forçada» a abandonar o acordo para a exportação de cereais ucranianos através do Mar Negro. Aqui, o cereal serve como um tabuleiro de xadrez geopolítico onde Putin e Erdogan movem as suas peças. Este «abandono forçado» é mais do que uma simples desistência; é um ato estratégico para fazer valer as suas exigências. Putin é claro: «Estaremos prontos a renovar o acordo dos cereais assim que todas as exigências forem cumpridas.»

Mas que exigências são estas? Estamos a falar de um líder russo que rege o seu país sob o paradigma de uma «Rússia forte». Portanto, não podemos encarar suas palavras com ligeireza. Para Putin, a Ucrânia tem que «suavizar a sua abordagem», como bem observou Erdogan. Mas será que uma Ucrânia submissa é o preço a pagar para que o trigo volte a fluir?

Curiosamente, enquanto Putin joga duro com a Ucrânia e a Turquia, mostra um lado mais «altruísta» ao mencionar que a Rússia está prestes a fornecer cereais gratuitamente a África. Será isto um mero ato de generosidade ou uma jogada mestra para consolidar a presença da Rússia no continente africano?

O que se torna evidente é que o tema dos cereais vai muito além da agricultura. É um reflexo das complexas relações internacionais e da contínua luta por poder e influência. Putin entende que os cereais não são apenas um bem comercial, mas sim um recurso que pode ser politizado, manipulado e, em última instância, usado para ganhar vantagem diplomática.

Ao rejeitar qualquer nova acordo sobre o transporte de cereais pelo Mar Negro, Putin faz um recado claro ao Ocidente: as relações não podem ser retomadas à la carte, e é Moscovo que dita as regras do jogo.

A reunião entre Putin e Erdogan pode não ter trazido o «anúncio muito importante» sobre as exportações de cereais prometido pelo líder turco, mas deixou patente que, no intrincado tabuleiro geopolítico, até o mais humilde dos grãos pode se transformar numa arma de poder. E neste jogo, como Putin nos lembra, quem não cumpre as regras, fica sem jogar.

Daniel dedica-se a explorar e analisar os complexos contextos sociopolíticos de Portugal e da Europa.