Lampedusa tornou-se o cenário preferido para fotografias oficiais e discursos políticos acalorados. Recentemente, a ilha recebeu a visita de Ursula von der Leyen e Giorgia Meloni. Mas ao olhar para as dez medidas propostas para controlar a «imigração ilegal», tenho de questionar: estaremos a atacar os sintomas em vez da doença?

Lampedusa, com capacidade para acolher 400 migrantes, viu este número disparar para quase 9 mil. Estes números refletem o desespero e a necessidade dessas pessoas, não um capricho ou simples vontade de perturbar a harmonia europeia. Portanto, qualquer solução proposta deve ser avaliada à luz das realidades no terreno e não apenas como uma medida reativa ao último desastre migratório.

O pacote de dez pontos, na sua essência, recicla e atualiza políticas previamente propostas. Claro, «somos nós quem deve decidir quem entra na Europa e não os traficantes», como disse von der Leyen. Mas ao focar apenas nos sintomas, negligenciamos as raízes da questão.

O décimo ponto, que envolve a execução de um acordo com a Tunísia, destaca-se. Neste acordo, a Europa compromete-se a fornecer fundos à Tunísia para controlar a migração. No entanto, o fluxo de fundos ainda não começou, e não é surpreendente que as autoridades tunisinas possam estar menos incentivadas a agir. Afinal, um acordo é uma via de mão dupla.

Mas aqui surge um ponto de tensão. O acordo, apesar de financeiramente atraente, levanta questões sobre os direitos humanos, particularmente com os recentes acontecimentos na Tunísia. Se estamos a negociar com um regime cujas práticas estão sob escrutínio, estamos realmente a investir numa solução sustentável?

Por um lado, a Europa procura proteger as suas fronteiras e garantir a segurança dos seus cidadãos. Por outro, há um dever humanitário inegável. O equilíbrio é difícil, mas não inatingível.

É essencial que as medidas tomadas sejam mais do que reações a crises imediatas. Precisamos de uma visão estratégica que se estenda para lá das águas de Lampedusa e que vá ao coração do problema.

Ao final do dia, enquanto discutimos planos e medidas, milhares enfrentam o perigo mortal do Mediterrâneo em busca de esperança. E o número de vidas perdidas – que já ultrapassa os dois mil só este ano – é um lembrete doloroso de que a verdadeira solução ainda não foi encontrada.