Entre as linhas das promissas diplomáticas, a cimeira do G20 de Nova Deli demonstrou uma vez mais as fragilidades das resoluções globais. Ao passo que as discussões avançavam em direção a um mundo onde «O mundo é uma família», as realidades geopolíticas, económicas e ambientais esbarraram nas intenções unificadoras.

É verdade que uma cimeira sob a presidência de Narendra Modi prometia muito, e o mote «Vasudhaiva Kutumbakam» reforçava esse ideal. No entanto, por detrás do consenso evidente em temas como as transições energéticas justas, pairavam as sombras de Vladimir Putin e Xi Jinping, cujas ausências foram notórias. Esta «família» mundial parece ainda não ter espaço para todos à mesa de negociações.

E mesmo naqueles temas onde havia um aparente consenso, a realidade divergia. Vejamos a situação da Ucrânia. A delicada condenação da invasão russa ficou aquém das expectativas. É desanimador perceber que, numa arena de líderes globais, as palavras ficam aquém de uma «condenação forte e unânime».

No que toca à questão do petróleo, a falta de uma posição firme e coesa mostra que ainda estamos distantes de uma verdadeira revolução verde. Mesmo com a crescente urgência climática, as decisões continuam a ser guiadas por interesses nacionais, em vez de um compromisso com o futuro do planeta.

Ainda assim, um lampejo de esperança surgiu à margem da cimeira, com a proposta do «Corredor Económico Índia-Médio Oriente-Europa». Este projeto ambicioso, que visa oferecer uma alternativa à Rota da Seda chinesa, demonstra uma tentativa de reconfiguração das alianças geopolíticas e comerciais. A ver vamos se este memorando se traduzirá em ação concreta ou se, tal como outras resoluções do G20, permanecerá nas gavetas da diplomacia.

Em suma, a cimeira do G20 em Nova Deli foi um espelho dos tempos que vivemos: cheios de promessas e intenções, mas também de divisões profundas. Resta esperar que, no futuro, a família global possa encontrar mais terreno comum para enfrentar os desafios que se avizinham.