Trabalhar para quê? Esta é a questão que, segundo o mais recente Barómetro Europeu sobre Pobreza e Precariedade, metade dos portugueses empregados deve estar a colocar a si mesmos. Um emprego já não garante uma vida digna e está longe de assegurar o sustento de uma família. O estudo, divulgado pela Ipsos e encomendado pelo Secours Populaire Français, revela um retrato de privação que não se confina apenas aos desempregados ou às franjas mais vulneráveis da sociedade. Atinge aqueles que, teoricamente, deveriam estar a salvo da pobreza: os empregados.

«Ter um emprego não significa necessariamente ser capaz de sobreviver financeiramente», salienta Etienne Mercier, autor do estudo. E esta cruel realidade não é um exclusivo de Portugal. Segundo o barómetro, mais de um terço dos trabalhadores europeus partilha deste mesmo dilema, destacando-se a nossa situação e a da Sérvia como particularmente alarmantes.

E o que significa, na prática, esta incapacidade financeira? Significa que quase três em cada dez europeus têm de renunciar a necessidades básicas como comida e aquecimento. No nosso país, esta penúria manifesta-se em decisões dramáticas: 39% dos inquiridos deixaram de comprar carne para poupar dinheiro e 10% são forçados a recorrer a associações de caridade para obter alimentos.

Mas vamos mais fundo. Quando 46% dos europeus desistem de aquecer as suas casas no inverno, apesar do frio, estamos perante uma falência não só económica, mas também moral da sociedade. O mesmo se aplica quando 38% dos inquiridos não fazem as três refeições por dia. Que tipo de Europa é esta onde trabalhar não afasta o espectro da fome e do frio?

E aqui entra a ironia maior. O estudo também aponta que 76% dos europeus estão dispostos a ajudar pessoalmente quem vive em condições de pobreza. O número sobe para 84% nos países mais afetados, como Grécia, Portugal e Sérvia. Ou seja, aqueles que menos têm, são os que mais estão dispostos a dar. Um belo gesto de solidariedade, sem dúvida, mas que também revela uma espécie de desespero coletivo, um clamor por mudanças profundas que tardam em vir.

O barómetro deixa claro que a situação é «muito preocupante» e que as medidas tomadas até agora têm-se revelado ineficazes. O emprego, longe de ser uma panaceia, tornou-se numa ilusão, num contrato social rompido que afasta cada vez mais pessoas daquilo que deveria ser uma vida digna.

É tempo de repensar o que significa realmente ter um trabalho em Portugal. Mais do que isso, é hora de questionar um modelo económico e social que, claramente, falhou na sua missão mais básica: proporcionar bem-estar àqueles que nele participam. Estes números não são apenas estatísticas; são um grito de alerta que não podemos continuar a ignorar.

Daniel dedica-se a explorar e analisar os complexos contextos sociopolíticos de Portugal e da Europa.