Há uma aura, quase poética, na abordagem política de António Costa, Primeiro-ministro de Portugal. Na abertura da 2.ª Academia Socialista em Évora, o líder socialista discursou sobre o «bem mais precioso»: a estabilidade. Fica evidente que para Costa, a relação entre governantes e governados é um «contrato». Um contrato onde o dever político reside na execução fiel dos compromissos selados.

Não obstante, um olhar mais aguçado revela nuances e, por vezes, uma dose de realismo temperada por esperança. Como quando o Primeiro-ministro, embora evitando a pressão do PSD, sublinha a trajetória decrescente do IRS desde 2015, antevendo mais alívios fiscais nos próximos anos. Tal compromisso soa promissor. Mas, seriam estas declarações um simples aceno à plateia ou um compromisso genuíno? A extensão do IVA zero para produtos alimentares parece responder a essa interrogação.

Ainda, ao anunciar uma futura «reforma muito importante» na articulação da saúde local e hospitalar e a gratuidade dos passes para menores de 23 anos, há um eco de resposta às necessidades emergentes da população. Todavia, essa mesma população também é testemunha das promessas não cumpridas, tal como a notória lacuna na promessa habitacional. A despeito de reconhecer a falha, Costa é astuto ao realçar os progressos: «17 mil já estão a andar».

A liberalização das rendas trouxe consigo desafios inesperados, e a «mão invisível do mercado» não conseguiu esconder as falhas. Mas António Costa, de uma forma quase sibilina, traz consigo uma mensagem de esperança e determinação. Como ele próprio menciona sobre as habitações: «É verdade, as 26 mil casas não estão prontas, mas se não tivéssemos começado elas nunca estariam em construção».

Finalizando, este é o legado de António Costa: uma mistura de realismo com visão. Promessas, algumas cumpridas, outras a caminho, mas sempre com uma certeza: a busca contínua pela estabilidade que, segundo ele, é o bem mais precioso. Será ele capaz de selar de forma definitiva este «contrato» de confiança com o povo português? Só o tempo dirá.

Daniel dedica-se a explorar e analisar os complexos contextos sociopolíticos de Portugal e da Europa.