«A Autoeuropa fecha as portas», a notícia soa quase apocalíptica. Uma pausa que nos recorda o quanto as engrenagens industriais são interligadas e, por vezes, vulneráveis. Hoje, a Autoeuropa, símbolo da excelência industrial em Portugal, inicia uma paragem de produção de nove semanas. A razão? A ausência de uma peça vinda da Eslovénia. Uma peça que desencadeia uma reação em cadeia, culminando no despedimento de centenas.

Quando pensamos em produção, pensamos em ciclos completos, linhas de montagem fluidas e processos bem oleados. No entanto, esquecemo-nos de que, por trás dessa máquina bem afinada, há uma teia intricada de fornecedores, trabalhadores e logística. Qualquer falha, por menor que seja, pode desencadear um efeito dominó. E essa falha, neste caso, aconteceu na Eslovénia, onde cheias devastadoras afetaram um dos fornecedores da Autoeuropa.

Mas o que isto nos mostra? Que a precariedade laboral é como um monstro à espreita. Logo após o anúncio da paragem, foram centenas os trabalhadores precários despedidos. Não apenas da Autoeuropa, mas também de várias empresas adjacentes do parque industrial. O número? A Coordenadora das Comissões de Trabalhadores coloca-o em 291. Porém, o SITE-Sul tem dados que apontam para uns impressionantes 560 despedimentos.

Estes números representam pessoas, famílias e histórias. A Autoeuropa, ao menos, tem planos de recorrer ao lay-off, comprometendo-se a garantir 95% dos salários. Um alívio temporário. No entanto, outras empresas, talvez sem a mesma capacidade de resiliência, já preveem cortes salariais de 5%, 10% e até 33%.

O panorama é preocupante e põe a nu a fragilidade da nossa indústria. Precisamos de soluções robustas, de redes de segurança para os trabalhadores e de uma indústria mais resiliente. Porque hoje é a Autoeuropa, mas amanhã pode ser qualquer um de nós.

Daniel dedica-se a explorar e analisar os complexos contextos sociopolíticos de Portugal e da Europa.